Apostila 8 · Toxina Botulínica · Marcas e ciência

Marcas, unidades e resistência: por que 1 unidade não é igual em toda bula

“1 unidade” soa como uma medida física fixa — como um grama ou um mililitro. Não é. Cada fabricante define a própria unidade por um bioensaio próprio, e a bula de cada produto afirma, com todas as letras, que as unidades não são intercambiáveis entre marcas. Esta apostila explica de onde vem essa confusão, o que a “tabela de conversão” realmente representa e por que, às vezes, o organismo passa a neutralizar o efeito com o tempo.

Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · Diretora Clínica
Aviso importante — leia antes

A toxina botulínica é um procedimento injetável — ato biomédico realizado por profissional habilitado. Este material é exclusivamente informativo e educativo: compara marcas pela nomenclatura farmacológica (DCB — onabotulinumtoxinA, abobotulinumtoxinA, incobotulinumtoxinA) apenas para fins de entendimento científico. Não é recomendação de compra de nenhuma marca e não substitui a avaliação individual, feita caso a caso pelo profissional que realiza o procedimento — é ele quem define produto, dose e técnica para cada pessoa.

Uma dúvida que aparece o tempo todo — e raramente é respondida direito: “se eu troco de marca, o número de unidades continua o mesmo?” A resposta curta é não. E a razão não tem nada a ver com marketing — está na forma como cada unidade é definida.

Isso importa porque a “tabela de conversão” que circula entre profissionais — algo como “1 unidade de uma marca equivale a 2,5–3 de outra” — não é uma equivalência regulatória testada e aprovada; é um consenso clínico construído ao longo de mais de 20 anos de prática comparada. E há um segundo capítulo pouco falado: o próprio organismo pode, com o tempo, criar anticorpos que neutralizam a toxina — tornando o procedimento menos eficaz. Vamos aos números.

A unidade nasce de um bioensaio — não de uma régua universal

Cada fabricante de toxina botulínica tipo A define sua própria “unidade” (U) por um bioensaio proprietário — historicamente, a dose letal mediana (DL50) em camundongos, específica do processo de fabricação daquele produto. Como o processo de purificação, o tamanho do complexo proteico e o excipiente variam entre onabotulinumtoxinA, abobotulinumtoxinA e incobotulinumtoxinA, uma unidade de um produto não corresponde, por definição, a uma unidade de outro (Scaglione, 2016). Não é uma diferença de marketing — é uma diferença de método de fabricação e de medida.

Como nasce a unidade de cada marca
O motivo pelo qual “1U” não viaja entre bulas
Fabricação própriacada marca purifica a toxina com processo e excipiente diferentes
Bioensaio próprioo fabricante define sua unidade por um teste de potência específico do seu lote
Unidade não intercambiávela bula registra isso explicitamente
Por que isso importa: não existe um “padrão internacional de unidade” comum às quatro marcas — cada uma tem sua própria escala de potência (Scaglione, 2016).
O quadro comparativo entre as quatro marcas

Colocando lado a lado os quatro produtos mais citados na literatura e na prática latino-americana — Botox (onabotulinumtoxinA), Dysport (abobotulinumtoxinA), Xeomin (incobotulinumtoxinA) e Prosigne (toxina tipo A de fabricação chinesa) — fica mais claro por que a conversão não é uma simples regra de três.

MarcaNome DCBComplexo/excipienteConversão aprox. vs. onabotulinumtoxinA
BotoxonabotulinumtoxinACom proteínas complexantesReferência (1U = 1U)
XeominincobotulinumtoxinASem proteínas complexantes (“naked”)≈ 1U (1:1)
DysportabobotulinumtoxinACom proteínas complexantes, complexo menor≈ 2,5–3U (faixa de 1,7 a 5U conforme o estudo)
Prosignetoxina tipo A (fabricação chinesa)Com proteínas complexantesSem conversão estabelecida em uso estético — dado extrapolado de espasticidade
Quantas unidades da outra marca “equivalem” a 1U de onabotulinumtoxinA
Faixas usadas na prática clínica — largura da barra ordena, não mede com precisão
Xeomin (incobotulinumtoxinA)
≈ 1×
Dysport (abobotulinumtoxinA)
≈ 2,5–3× (até 5× em alguns estudos)
Prosigne
Sem faixa estabelecida (estética)
Consenso clínico, não equivalência regulatória: nenhuma bula declara essa razão como equivalência farmacológica comprovada — é uma referência prática, calibrada por observação comparada ao longo de mais de 20 anos, não por um ensaio único desenhado para medir “quantas unidades equivalem a quantas” (Scaglione, 2016).
O fato consolidado
Onde a régua ainda varia
A bula de cada fabricante declara textualmente que as unidades não são intercambiáveis entre produtos — isso é consenso regulatório, não opinião de profissional (Scaglione, 2016).
O valor exato da razão Botox : Dysport varia entre estudos — de 1,7:1 a 5:1 conforme a indicação e o desenho do ensaio, sendo 2,5–3:1 a faixa mais citada na prática (Scaglione, 2016). Não existe RCT desenhado para fechar esse número com precisão em uso estético.
Um erro muito comum

Tratar a “tabela de conversão” como uma fórmula matemática fixa e universal, igual para qualquer pessoa e qualquer área do rosto.

A razão de conversão é uma referência de bastidor clínico, não uma equivalência regulatória testada e travada — ela varia conforme a região tratada, o volume de diluição e a resposta individual observada ao longo do tempo (Scaglione, 2016). Achar que “3 unidades de uma marca sempre vale exatamente 1 da outra” é confundir consenso prático com medida de laboratório.

O certo: entender a conversão como faixa de referência que o profissional habilitado ajusta caso a caso — não como número fechado que se aplica a qualquer situação.

O primeiro ensaio a comparar quatro marcas de frente

A maior parte da comparação entre marcas vem de estudos separados, feitos em épocas e populações diferentes — o que é uma limitação para comparar diretamente. Um ensaio recente muda esse cenário: randomizado, duplo-cego, 4 braços, com 143 mulheres, comparou objetivamente quatro formulações de toxina para a linha glabelar usando fotogrametria 3D dinâmica — uma medição direta do movimento muscular, não apenas escala visual do avaliador. Resultado: abobotulinumtoxinA e prabotulinumtoxinA tiveram início de ação mais rápido, e prabotulinumtoxinA apresentou o efeito mais duradouro entre as quatro (Lemdani, 2025). É o primeiro RCT a medir objetivamente diferenças de tempo de ação entre marcas na mesma população — mas ele não resolve a pergunta da conversão de dose, que segue sendo um cálculo de bastidor, não um resultado direto desse estudo.

O que isso muda na prática

Início mais rápido ou duração mais longa não tornam uma marca “melhor” de forma absoluta — são características diferentes que o profissional pondera junto com a região tratada, a expectativa da pessoa e o histórico de procedimentos anteriores.

Anticorpos neutralizantes: quando o corpo passa a “desarmar” a toxina

Todo composto proteico injetado pode, em teoria, provocar uma resposta imune. Com a toxina botulínica, isso acontece quando o organismo produz anticorpos neutralizantes (NAb) — moléculas que se ligam à toxina e bloqueiam sua ação antes que ela alcance o terminal nervoso. Quando isso ocorre, o efeito clínico diminui ou desaparece, mesmo com a técnica e a dose de sempre. Uma meta-análise de estudos de registro global com onabotulinumtoxinA encontrou incidência de 0,5% de NAb entre os pacientes avaliáveis (27 em 5.876) — e apenas 0,3% seguiam positivos ao final do acompanhamento (Naumann, 2010).

O número de 10% que circula é real — mas veio de outro contexto

Uma meta-análise mais ampla, somando todos os produtos de toxina tipo A e todas as indicações (não só estética), encontrou incidência agrupada de NAb de 10,1% (IC95%: 5,1–17,3%) (Rahman, Alhitmi & Mosahebi, 2022) — um número bem maior que o 0,5% de Naumann. A diferença não é contradição: é heterogeneidade de população. O grupo de 10,1% inclui majoritariamente pacientes de indicações neurológicas, tratados com doses muito mais altas e intervalos muito mais curtos que o padrão estético — o próprio estudo aponta que doses maiores e mais frequentes se associam a maior formação de anticorpos. Confundir os dois contextos ao explicar risco para alguém é, na prática, desonesto — o risco em uso estético padrão (dose baixa, intervalo longo) fica muito mais próximo de 0,5–2% do que de 10%.

Uso estético padrão
Dose baixa · intervalo longo
o cenário mais comum em procedimento facial estético
Incidência de anticorpos neutralizantes≈ 0,5–2%
Uso terapêutico/neurológico
Dose alta · intervalo curto
indicações como espasticidade e enxaqueca crônica, com doses bem maiores
Incidência de anticorpos neutralizantes≈ 10,1%

Barras ilustrativas — ordenam a diferença de magnitude entre contextos, não medem um valor único (Naumann, 2010; Rahman, Alhitmi & Mosahebi, 2022).

A formulação também parece pesar no risco

A mesma meta-análise de 2022 observou uma diferença relativa entre marcas ao segmentar os dados: incobotulinumtoxinA — a única formulação sem proteínas complexantes acessórias — apareceu associada a menor risco relativo de formação de anticorpos, enquanto abobotulinumtoxinA apareceu com risco relativo maior entre as marcas estéticas avaliadas (Rahman, Alhitmi & Mosahebi, 2022). É uma hipótese biologicamente plausível — menos proteína acessória, menos estímulo ao sistema imune — mas os próprios autores tratam esse achado como comparação indireta entre estudos heterogêneos, não como um RCT cabeça a cabeça desenhado para medir isso.

Quem está mais exposto ao risco

Quem já fez muitas sessões em intervalos curtos, ou já usou doses altas por outra indicação de saúde (não estética), carrega um histórico que pode elevar o risco de resistência secundária. Esse histórico é exatamente o tipo de informação que o profissional precisa conhecer antes de definir produto e dose.

E o Prosigne, a toxina de fabricação chinesa usada na América Latina?

O Prosigne aparece com frequência em comparações de custo na região, mas sua base de evidência direta em uso estético é mais limitada que a dos três produtos anteriores. O dado comparativo mais robusto disponível vem de um ensaio clínico cruzado, randomizado e duplo-cego, com 57 pacientes: Prosigne e onabotulinumtoxinA (Botox) mostraram-se equivalentes em eficácia e segurança — mas o estudo foi conduzido em espasticidade, uma indicação neurológica com dose terapêutica, não em uso estético facial (estudo em PLOS ONE, referenciado no dossiê de evidência). Uma revisão farmacológica de 2015 também documenta diferenças de excipiente e de tamanho de complexo proteico entre os produtos disponíveis comercialmente, incluindo os de fabricação asiática. Ou seja: existe evidência de equivalência — mas ela foi gerada num contexto diferente do procedimento estético, e extrapolar de um contexto para o outro exige cautela.

O quadro que resume o risco por contexto de uso
ContextoDose típicaIncidência de anticorpos (NAb)Fonte
Estético padrãoBaixa, intervalo longo≈ 0,5–2%Naumann, 2010
Terapêutico/neurológicoAlta, intervalo curto≈ 10,1% (agrupado)Rahman et al., 2022
incobotulinumtoxinA (sem complexo acessório)Risco relativo menor entre as marcas comparadasRahman et al., 2022
abobotulinumtoxinA (complexo menor)Risco relativo maior entre as marcas comparadasRahman et al., 2022
A Sacada dos DoutoresMarca não é commodity, e unidade não é uma régua neutra

A confusão em torno de “quantas unidades” nasce de tratar a unidade como se fosse uma medida física universal — como um grama. Não é: é uma convenção que cada fabricante criou para o próprio produto, por isso a bula é categórica ao dizer que unidades de marcas diferentes não são intercambiáveis. A “tabela de conversão” que qualquer profissional experiente usa é ciência aplicada de bastidor — construída por observação comparada ao longo de décadas — não uma equivalência regulatória fechada. E sobre resistência: ela existe, é real, mas em dose e intervalo estéticos padrão o risco é baixo; o número que assusta (10%) vem, majoritariamente, de quem já usou dose alta por outra razão de saúde. São duas informações que merecem ser ditas juntas, com a calibração correta.

DF
Dra. Daniele FlorêncioBiomédica · CRBM 8242-PR · responsável pelo conteúdo
O que levar desta apostila
  • A unidade é definida por bioensaio próprio de cada fabricante — por isso não é intercambiável entre marcas (Scaglione, 2016).
  • A bula de cada produto declara isso explicitamente — não é opinião de profissional, é informação regulatória.
  • A “tabela de conversão” (ex.: ≈2,5–3:1 para Dysport) é consenso clínico, não equivalência farmacológica testada em RCT dedicado.
  • O primeiro RCT comparando 4 marcas de frente (143 mulheres, fotogrametria 3D) mostrou diferenças reais de início e duração de efeito (Lemdani, 2025).
  • Anticorpos neutralizantes existem: ≈0,5–2% em uso estético padrão vs. ≈10,1% em contexto de dose alta/neurológica — não confundir os dois números (Naumann, 2010; Rahman et al., 2022).
  • O Prosigne tem evidência de equivalência ao Botox, mas gerada em espasticidade (dose terapêutica), não em uso estético.
  • Produto, dose e técnica são decisão do profissional habilitado, caso a caso — este material não recomenda marca nenhuma.
O próximo passo

Depois de entender que a unidade muda de marca para marca e que a resistência existe — ainda que rara em dose estética padrão — a última pergunta desta série é a mais importante: onde a toxina realmente para de fazer sentido? A apostila 9 fecha a série com o limite honesto: o que ela não resolve, quanto dura de verdade e quando a expectativa precisa ser recalibrada.

Referências
  1. Scaglione F. Conversion Ratio between Botox, Dysport, and Xeomin in Clinical Practice. Toxins, 2016;8(3):65 — bioensaio próprio por fabricante; razão de conversão Ona:Inco ≈1:1, Ona:Abo variando de 1,7:1 a 5:1 (mais citada 2,5–3:1); unidades não intercambiáveis.
  2. Lemdani M, et al. Comparative Onset and Duration of Four Botulinum Toxin Formulations for Glabellar Lines. JAMA Dermatology, 2025;161(7):723–730 — RCT duplo-cego, 4 braços, 143 mulheres, fotogrametria 3D dinâmica; abobotulinumtoxinA e prabotulinumtoxinA com onset mais rápido, prabotulinumtoxinA com maior duração.
  3. Naumann M, Carruthers A, Carruthers J, et al. Meta-analysis of neutralizing antibody conversion with onabotulinumtoxinA across multiple indications. Movement Disorders, 2010;25:2211–2218 — incidência de anticorpos neutralizantes de 0,5% (27/5.876 avaliáveis), 0,3% persistentes ao final do estudo.
  4. Rahman E, Alhitmi HK, Mosahebi A. Systematic review and meta-analysis of the incidence of neutralizing antibodies to botulinum toxin. Aesthetic Surgery Journal, 2022;42(1):106–120 — incidência agrupada de 10,1% (todas as formulações/indicações), puxada por populações de dose alta; risco relativo diferente entre marcas.
  5. (revisão farmacológica comparativa entre produtos de toxina botulínica tipo A disponíveis comercialmente). Pharmacology and clinical properties of botulinum toxin type A products. CNS Drugs, 2015 — diferenças de excipiente, complexo proteico e processo de fabricação entre marcas, incluindo produtos de fabricação asiática.
  6. (ensaio cruzado Prosigne vs. onabotulinumtoxinA em espasticidade). Randomized double-blind crossover trial comparing two botulinum toxin type A products. PLOS ONE — 57 pacientes; eficácia e segurança equivalentes entre os dois produtos em indicação neurológica/dose terapêutica.
Dra. Daniele Florêncio
Biomédica · CRBM 8242-PR
Conteúdo informativo e educativo — NÃO é recomendação de compra de marca nem prescrição. A toxina botulínica é um procedimento injetável; a escolha de produto, dose e técnica é decisão do profissional habilitado, feita após avaliação individual. As comparações entre marcas aqui apresentadas usam nomenclatura farmacológica (DCB) com finalidade exclusivamente científica e educativa.